terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Frio


Tenho dias de frio e negação. As lacerações da pele, os abismos das posses e perdas, os assombros de quem vive a margem, o delicado limite entre as desatenções e as delícias, as noites hélices, as palavras vítimas, as palavras coisas, as palavras foices, as palavras distância, e as dores que insistem, em dias assim, em não secar ao sol.

Talvez já não saiba mais reinventar girassóis. Ou amar com receios. E volto a ficar como antigamente, a olhar o entardecer, imaginando que o mundo era extenso demais, as mulheres longas demais, o amor longo e imprevisível, esta armadilha rodeada de impossíveis demais.

Há dias que estou ilegível. Não crio limo. Não condeno abandonos. Não basto, não faço feitiços. Reconheço e passo recibo das imensidões que não alcanço. Sei-me escasso. Faço meu, de falhas e limites, meu tamanho e terreiro.

Há dias que não me sei conduzir. Nem entre os seios de perdição ou os risos de milagres. Talvez sitiado só não saiba mais fazer palavras-flores...

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