quarta-feira, 3 de setembro de 2008

A voz do vale (II)


O som do rio do vale aumenta, diminui, desaparece, mas não é o rio que muda. Quando as ondas da nossa mente se acalmam, podemos ouvir o sermão sem palavras da água, das gotas, da erva, das árvores, dos seixos e das montanhas, que nos ensinam a transitoriedade de todas as coisas. Quando surgem pensamentos, todos se calam. Na verdade, eles não deixam de falar; nós é que perdemos a capacidade de ouvi-los.
O que acontece com os nossos ouvidos também acontece com os nossos olhos. Quando o olhar da mente é límpido, vemos tudo como realmente é, de modo natural. Mas assim que os olhos se distraem com objectos externos, não vemos mais. Perdemos a capacidade de ver correctamente. Sons e imagens atacam-nos, arrastam-nos, puxam-nos. Coisas que deveríamos ver, não vemos. Coisas que deveríamos ouvir, não ouvimos.
Se escutarmos o rio sem atenção, a água que corre parece ter um ritmo constante e ininterrupto. Entretanto, nenhuma gota d'água passa duas vezes sobre a mesma pedra. Não é nunca a mesma gota que forma o leito do rio ou o murmúrio da correnteza. A imutabilidade é apenas uma ilusão dos olhos e dos ouvidos humanos. Uma vez que tenha passado, a água não corre nunca mais no mesmo ponto do rio.
A vida humana não é diferente. Acreditar que ontem é igual a hoje é resultado da nossa ignorância e insensibilidade. Os olhos iluminados vêem claramente a imagem das coisas em eterno movimento e reconhecem que um instante é diferente de qualquer outro.

Barco Ancorado 03/09/2008


O novo álbum dos Snow Patrol, "A Hundred Million Suns" vai dar acesso a conteúdos extra, no iPhone e no iPod Touch.
A banda é a primeira a recorrer às vantagens tecnológicas deste suporte, permitindo aos seus fãs descarregar capas diferentes, imagens de bastidores e as letras das músicas, usando o sistema touchscreen.
"A Hundred Million Suns" tem lançamento marcado para 27 de Outubro. Aproveitando esta notícia, hoje falamos dos Snow Patrol no Barco Ancorado.

Os Snow Patrol, enquanto banda de rock alternativo, são originários da Irlanda do Norte mas seriam formados em Dundee, na Escócia, criando depois a sua base em Glasgow, onde assinaram contrato com a Polydor Records.
Run", "Chasing Cars" e "Signal Fire", da banda sonora de “Homem Aranha 3”, trouxeram-nos à ribalta. Os primeiros três álbuns da banda - “Starfighter Pilot”, “Songs for Polarbears” e “When it's All Over We Still Have to Clear Up” – não obtiveram sucesso comercial, tanto mais que foram produzidos por uma gravadora independente. Quando os Snow Patrol assinaram com a Polydor Records, apareceu o seu primeiro álbum a sério. “Final Straw” arrecadou imediatamente quatro discos de platina no Reino Unido.
Depois veio o sucesso mundial graças ao álbum “Eyes Open”, com vendas na ordem das 4,7 milhões de cópias. Os Snow Patrol eram então nomeados para três Brit Awards e venceram cinco Meteors. A banda já vendeu mais de 7 milhões de discos em todo o Mundo.

Os Snow Patrol apareceriam em 1994 como "Shrug", formados por Gary Lightbody e Mark McClelland na Universidade de Dundee, na Escócia. A banda começou a apresentar-se exactamente na Universidade e em pubs da cidade, antes de alteraram o nome para Polar Bear em 1995. Nos anos seguintes, curiosamente, foi intenção dos membros do que viriam a ser os Snow Patrol de integrarem os “Belle & Sebastian”.
Em meados de 1997, surge finalmente a denominação “Snow Patrol” e aparece “Starfighter Pilot”, com a participação de Richard Colburn, dos Belle & Sebastian, na bateria, e de Stuart Murdoch, da mesma banda, a cantar um dos temas do lado B do disco.
Estavam formados os Snow Patrol, a quem se juntaria, nessa altura, o baterista permanente Jonny Quinn.

Um dos maiores sucessos dos Snow Patrol nasceu do álbum “Eyes Open”, de Dezembro de 2005. "Chasing Cars" tornou-se quase um fenómeno depois de ter sido ouvida na 2ª temporada da série norte-americana “Anatomia de Grey”. A popularidade foi tanta que em Dezembro de 2006 a canção seria votada pelos ouvintes da Virgin Radio como a nº1 de sempre.
Nesse mesmo ano, já os Snow Patrol tinham aparecido a interpretar "Chasing Cars" na BBC, no programa Top of the Pops.
Ainda em 2006, a banda gravou ao vivo nos Abbey Road Studios na companhia de Madeleine Peyroux e dos Red Hot Chili Peppers.

Alinhamento
Snow Patrol - Run
Snow Patrol – How to be dead
Coldplay - Clocks
Keane – This is the last time
Snow Patrol – Signal fire
James Blunt – Carry you home
Snow Patrol – Chasing cars

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Barco Ancorado 02/09/2008


O novo álbum dos Verve, "Forth", entrou directamente para a liderança do top britânico esta semana. O registo marca o regresso do colectivo às gravações, depois de um interregno de 11 anos. Apesar de ser o número um na contagem dos álbuns mais vendidos na última semana no Reino Unido, o tema de apresentação ao disco, 'Love Is Noise', não foi além de um nono lugar na tabela de singles.
No Barco Ancorado desta terça-feira vamos ouvir o novo trabalho dos Verve.

Além de 'Love is Noise', o sucessor de "Urban Hymns" (1997) é composto por mais nove canções, entre as quais 'Sit And Wonder' e 'Rather Be'.
"Fourth" é, como o nome indica, o quarto álbum dos Verve e tem sido bem recebido pela imprensa internacional especializada.
Quinze anos depois do auge, o britpop recusa-se a morrer. Oasis e Verve, dois dos maiores nomes do bem-sucedido movimento de bandas de rock inglesas de meados dos anos 90, tentam manter a relevância musical em pleno 2008, o primeiro com Dig Out Your Soul, que sai em Outubro, e o segundo com Forth, quarto álbum de estúdio, lançado esta semana na Europa e nos Estados Unidos.
Na verdade, o caso dos Verve é mais de morte e ressurreição do que de persistência. O grupo surgiu em 1989, separou-se em 1995, voltou em 1997, terminou de novo em 1999 e está de volta agora. Quando toda a gente acha que as suas baladas grandiosas são coisa do passado, quando aparece o vocalista Richard Ashcroft com a sua cara de caveira levantada da tumba, causando catarse com Bittersweet Symphony e outros clássicos, como fez nos festivais de música deste ano na Europa.

Além da nostalgia, o que deu força a este regresso dos Verve foi o novo single, Love is Noise, que consegue ser tão bom quanto as melhores músicas do grupo - e tem o mesmo sucesso também, visto que foi directamente para o topo das paradas britânicas.
A faixa é uma ponte entre as duas pedras fundamentais do grupo: as melodias marcantes do disco Urban Hymns (1997) e o rock potente e psicadélico de A Northern Soul (1995). Os gritos primais de Ashcroft no início da música são um sinal da energia e da autoconfiança do regresso.
Com o refrão "Love is noise/Love is pain/Love is this blues that I'm singing again" (Amor é barulho/Amor é dor/Amor é esse blues que eu canto de novo), os Verve chegam a mais um dos seus hinos de amor sombrios.
Depois de Love is Noise, Forth segue muito mais para o lado do barulho do que do amor - mais parecido com A Northern Soul do que com Urban Hymns, portanto. O contraponto à música de trabalho é Noise Epic, oito minutos de distorção e versos aleatórios que chegam a lembrar os americanos Sonic Youth.
As faixas restantes mantêm esse clima de "jam psicodélica" de Noise Epic, apenas trocando a distorção por efeitos de reverber e delay. A faixa já foi chamada por críticos de "épico vazio". Não deixa de ser verdade, mas parece ser exactamente o que a banda queria, o que fica mais claro ainda em Numbness.

Nos minutos iniciais de Noise Epic, o contrabaixo de Simon Jones é o instrumento que predomina, mais alto até do que a voz de Ashcroft. Enquanto todos esperavam o reencontro do vocalista com o guitarrista Nick McCabe, é Jones que acaba por ser a figura mais importante desse trabalho. As suas linhas de baixo marcantes e hipnóticas dão o tom de Forth, um disco de arranjos, mais do que de canções.
É possível ouvir as novas músicas buscando outra Love is Noise e chegar a outros bons momentos em Sit and Wonder e Valium Skies. Mas é melhor desistir de uma sucessão de hits, afinal os Verve estão muito velhos para esse papel (mais adequado para bandas mais jovens, como os Kaiser Chiefs, por exemplo). No fim das contas, Forth não é um CD para ser ouvido no rádio, de mãos dadas com a namorada, e sim no som do quarto, sozinho e no escuro.

Alinhamento
Verve – Love is noise
Verve – Sit and wonder
Blur – Coffee and TV
Oasis – Stand by me
Verve - Numbness
Keane - Bedshapped
Verve – Valium skies

A voz do vale (I)


A água do rio flui sempre, sem cessar. Flui rápida, não pára um só instante e vai-se.
O seu murmúrio evoca em mim o eco do tempo. A água do tempo brilha no leito do Universo, sempre a correr, a fluir. Pedras, árvores, casas e cidades também fluem vagarosamente nesta correnteza, assim como os seres.
Tudo isso pode parecer imutável, mas na verdade essa ideia não passa de uma ilusão.
Apenas nós, seres humanos, acreditamos erradamente que tudo é imutável. Esforçamo-nos para não sermos levados pela correnteza e lamentamos por tudo o que se vai. No entanto, mesmo sofrendo e desdobrando-nos, caindo sete vezes e nos levantando oito, não há como parar o fluir, que envolve também a nossa dor e a nossa luta.
É melhor ver as coisas como são e nos juntarmos a essa correnteza, com suavidade. Apenas assim poderemos encontrar prazer na fugacidade das coisas, uma vez que é justamente essa fugacidade que tece as mais diversas figuras na tapeçaria da vida.

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Barco Ancorado 01/09/2008


Os Nouvelle Vague regressam a Portugal em Novembro. O grupo francês, que teve de cancelar o concerto na última edição do Optimus Alive! devido a problemas no voo, actua a 7 de Novembro no Campo Pequeno, em Lisboa, e no Teatro Sá da Bandeira, no Porto, um dia depois.
As actuações servem de apresentação ao novo e vindouro álbum do colectivo, com edição marcada para Março do próximo ano.
Além dos temas que farão parte do registo, os Nouvelle Vague trarão também consigo mais duas (novas) vozes femininas: Nadeah e Marianne Elise.
Os bilhetes para os espectáculos de Lisboa e Porto já se encontram à venda e custam entre 24 e 30 euros, para a capital, e 24 euros (preço único) para a Invicta.
Ambos os concertos têm hora de início prevista para as 21h30.

Nouvelle Vague é um colectivo musical francês arranjado por Marc Collin e Olivier Libaux. O nome deles é um jogo de palavras, referindo-se simultaneamente à "francesidade" deles, ao movimento artístico do cinema francês Nouvelle Vague, dos anos 60, à fonte das suas canções (todas são covers de músicas punk e new wave dos anos 80) e ao uso do estilo Bossa nova, também dos anos 60.

No primeiro álbum, Nouvelle Vague, o grupo ressuscitou clássicos da era da música New Wave dos anos 80 e reinterpretou-as num estilo Bossa nova picante. As canções receberam um aspecto mais acústico com ritmos flexíveis e agitadores executados de forma a colectar uma parada de chanteuses de todo o mundo (seis francesas, uma brasileira e uma nova-iorquina). Os covers incluem canções dos Joy Division, Dead Kennedys, The Clash e Depeche Mode. As várias cantoras dos Nouvelle Vague apenas executaram canções com as quais não estava familiarizadas anteriormente, com a finalidade de garantir que cada cover tivesse uma qualidade única.
O segundo álbum, Bande à Part, inclue versões de "Ever Fallen in Love?, dos Buzzcocks, "Blue Monday" dos New Order, "The Killing Moon" dos Echo & the Bunnymen e "Heart of Glass" de Blondie.

Muitas das canções dos Nouvelle Vague, tais como "In a Manner of Speaking", "Just Can't Get Enough" e "Teenage Kicks", têm sido usadas na série Sugar Rush, da rede de televisão Channel 4. As versões de "Just Can't Get Enough" e "Teenage Kicks" também têm sido usadas em anúncios no Reino Unido. Em 2005, o cover de "I Melt with You", canção da banda Modern English, foi usado como banda sonora do filme Mr. and Mrs. Smith. Já o cover de "Too Drunk to Fuck", da banda Dead Kennedys, pode ser escutado no filme de 2007 Grindhouse.
Membros, ex-membros e contribuidores (a maioria artistas franceses) dos Nouvelle Vague, são considerados parte do que se chama "Renouveau de la chanson française". Anaïs Croze, Camille Dalmais, Phoebe Killdeer, Mélanie Pain e Marina são algumas delas.

Alinhamento
Nouvelle Vague – Love will tear us apart
Nouvelle Vague – Sweet & tender hooligan
Goldfrapp – Caravan girl
Massive Atack – Five man army
Moby – Lift me up
Nouvelle Vague – Dancing with myself
Radiohead – No surprises
Aimmee Mann – Lost in space
Bjork – Hidden place
Nouvelle Vague – This is not a love song