quinta-feira, 3 de julho de 2008

Navegar


Deixem-me navegar para além do mar esmeralda
Deixem-me navegar além dos ventos enganosos
Deixem-me navegar muito além das tormentas
Deixem-me nas águas mansas dos meus sonhos

Posso abrir o peito às brisas matinais
Sei navegar no prateado da lua cheia
Deixem-me dizer adeus às dores profundas
Deixem-me velas pandas na minha verdade

Traçarei uma linha branca sobre mar anil
Navegarei o mundo em busca de afagos
Estarei sonhador sobre sorriso da realidade

Posso sonhar com olhos abertos ao mundo
que irá ficando pequeno como novelo de lã
Puxarei pela ponta desenrolando no rumo
irei atando e cortando os pedaços de mágoa
Será mais fácil destinos se encontrarem
Será difícil nos perdermos em tempestades

Deixem-me navegar para além do mar esmeralda
Deixem-me navegar além dos ventos enganosos
Deixem-me navegar muito além das tormentas
Deixem-me nas águas mansas dos meus sonhos

Barco Ancorado 03/07/2008


James Douglas Morrison morreu há 27 anos. Jim Morrison nasceu em Melbourne, na Flórida, a 8 de Dezembro de 1943 e oficialmente viria a falecer na madrugada do dia 3de Julho de 1971 em Paris. Cantor, compositor, poeta, Jim Morrison foi o vocalista e autor da maior parte das letras da banda The Doors e ainda hoje é um ícone da música.
Jim Morrison era filho do almirante George Stephen Morrison e de Clara Clark Morrison, ambos funcionários da marinha americana. Os seus pais eram conservadores e rigorosos. Todavia, Jim acabou por tomar para si pontos de vista completamente antagónicos aos que lhe foram ensinados.

De acordo com o próprio Jim Morrison, um dos eventos mais importantes da sua vida aconteceu em 1949 durante uma viagem de família ao Novo México. O momento foi assim descrito:
“A primeira vez que descobri a morte… eu, os meus pais e os meus avós íamos de automóvel no meio do deserto ao amanhecer. Um camião carregado de índios tinha chocado com outra viatura e havia índios espalhados por toda a auto-estrada, sangrando. Eu era apenas um miúdo e fui obrigado a ficar dentro do automóvel enquanto os meus pais foram ver o que se passava. Não consegui ver nada – para mim era apenas tinta vermelha esquisita e pessoas deitadas no chão, mas sentia que alguma coisa se tinha passado, porque conseguia perceber a vibração das pessoas à minha volta, então de repente apercebi-me que elas não sabiam mais do que eu sobre o que tinha acontecido. Esta foi a primeira vez que senti medo... e eu penso que nessa altura as almas daqueles índios mortos – talvez de um ou dois deles – andavam a correr e aos pulos e vieram parar à minha alma, e eu, apenas como uma esponja, ali sentado a absorvê-las.”
Os pais de Morrison afirmaram que tal incidente nunca ocorreu. Morrison dizia que ficara tão perturbado pelo caso que os seus pais lhe diziam que tinha sido um pesadelo, para o acalmar. Em qualquer caso, tenha sido real ou imaginário, o incidente marcou-o profundamente, e ele fez repetidas referências nas suas canções, poemas e entrevistas, como por exemplo no tema "Peace Frog".

Morrison tornou-se um descobridor, interessado em explorar novos caminhos e sensações diferentes, seguiu uma vida de boémia na Califórnia e frequentou a Universidade em Los Angeles, formando-se no curso de cinema. Após a graduação pela UCLA, após um encontro casual com o seu antigo colega Ray Manzarek, leu-lhe alguns poemas (entre os quais o famoso "Moonlight Drive"), e ambos decidiram na hora fazer uma banda rock. Para completar a banda vieram mais dois membros: Robby Krieger e John Densmore, que Ray conhecia das suas aulas de meditação. O nome da banda – The Doors - foi inspirado no livro The Doors of Perception de Aldous Huxley, que o tinha ido buscar a um verso de um poema de William Blake, que dizia: “Se as portas da percepção estiverem limpas/tudo se apresentará ao homem como é, infinito”.
Criados os The Doors, Jim Morrison desenvolveu um estilo de cantar único e um estilo de poesia a tocar fortemente no misticismo.
Adoptou a alcunha de “Mr. Mojo Risin’”, um anagrama de “Jim Morrison”, que usou como refrão na música “LA Woman” no álbum do mesmo nome e o último que gravou. Era também chamado de Lizard King, retirado de um verso do seu famoso épico “The celebration of the Lizard”, parte do qual foi gravado no álbum Waiting for the Sun, adaptado a musical nos anos 90.
Ainda antes da formação dos Doors, Morrison começou a consumir várias drogas, a beber álcool em grandes quantidades e a entregar-se a bacanais, aparecendo embriagado para as sessões de gravação.
Em Março de 1971, após todos os membros da banda terem decidido parar por algum tempo, Morrison mudou-se para Paris na companhia da sua namorada de sempre, Pamela Courson, com o propósito de se concentrar na escrita.

Oficialmente, Jim Morrison morreu na madrugada de 3 de Julho de 1971, em Paris, com apenas 27 anos. Muitos fãs e biógrafos especulam ainda sobre a causa da morte. Jim não era conhecido por consumir heroína, mas Pam fazia-o e morreu de overdose em 1974, e é sabido que nesse Verão correu por Paris heroína de uma pureza invulgar. Outra hipótese seria um assassinato feito pelas próprias autoridades do governo americano. Morrison referiu-se a si próprio como sendo o nº 3 a morrer misteriosamente, tendo sido os dois primeiros Jimi Hendrix e Janis Joplin. O relatório oficial diz que foi “ataque de coração” a causa da sua morte.
Jim Morrison está sepultado no famoso cemitério do Père-Lachaise em Paris. Devido a actos de vandalismo de alguns fãs, por diversas vezes a associação de amigos do cemitério sugeriu que o corpo fosse transferido para outra necrópole.
Não o foi ainda e é seguro que hoje houve romaria ao Père-Lachaise. Jim Morrison morreu já lá vão 27 anos.

Alinhamento
The Doors – Light my fire
The Doors – Spanish caravan
Boston – More than a feeling
The Doors – People are strange
Pink Floyd – Is there anybody out there
The Doors – The end

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Barco Ancorado 02/07/2008


Rita Lee esteve no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, ontem à noite. Uma sala quase lotada assistiu ao regresso da cantora brasileira, integrado na sua "Picnic Tour". Ou seja um espectáculo recheado de êxitos para celebrar 40 anos de carreira da "vovó" do rock brasileiro. Foi com 'Flagra (No Escurinho do Cinema)', um dos seus temas mais conhecidos, que Rita Lee presenteou desde logo os presentes na sala lisboeta. Mas o escurinho aconteceu apenas na letra da dita canção, porque o espectáculo visual, esse, fez-se de cor, muita cor. As luzes e figuras psicadélicas que iam aparecendo no ecrã encontravam rival à altura no visual da cantora, que se apresentou com a sua imagem irreverente de sempre, desta feita em forma de chapéu verde, óculos de lentes avermelhadas, calças e colete pretos e camisa de padrão e colorido tropicais. Hoje, Rita Lee passa pelo Barco Ancorado.

Rita Lee é também uma actriz em palco e encarna várias personagens nos seus temas, usando acessórios e piadas a gosto, ao seu jeito viperino, para os introduzir. Em Lisboa, nem Scolari escapou. Ou então a versão para 'I Want to Hold Your Hand', dos Beatles, servida numa adaptação lírica para português e arranjos musicais de forró, com direito a chapéu nordestino e ferrinhos e referências desdenhosas a Yoko Ono, apenas denominada de «a japonesa».
A diversidade interpretativa de Rita Lee em palco foi sendo acompanhada pela alternância dos temas mais rock com as baladas mais pop e os passos de dança do público. O desfiar das memórias do baú musical da cantora que fez parte dos Mutantes, encontrou um coro afinado em uníssono. Nem de propósito, 'Mutante' foi uma delas, sendo que noutras a artista simplesmente parou para ouvir o reflexo sonoro das suas canções nas vozes dos seus fãs. 'Doce Vampiro' ou 'Ovelha Negra' deram o exemplo. Nesta última houve também lugar a projecções autobiográficas com fotografias suas.

Se a familiaridade com a cultura nacional é notória em Rita Lee, há coisas mais modernas que a surpreenderam num dos passeios recentes pela capital portuguesa. Ao pedir opinião à lojista de um estabelecimento comercial onde experimentou umas calças, obteve a seguinte resposta: «estão um bocado apertadinhas no cu», contou, completando sem esconder a indignação, «eu sou uma senhora, pô». E esta senhora deu mais meia dúzia de canções no Coliseu, deixando o melhor para o fim e oferecendo no encore uma sequência que juntou clássicos como 'Mania de Você', 'Banho de Espuma', 'Desculpe o Auê', 'Erva Venenosa' ou 'Lança Perfume'.

Rita Lee é também uma senhora de família e esta esteve em palco: o companheiro de longa data Roberto Carvalho e o filho Berto Lee, ambos nas guitarras. Daí que o gesto de lamber o braço a um dos guitarristas (no caso, o filho) tenha aqui o condão de dar um toque de maturidade à atitude de irreverência roqueira. De resto, em Rita Lee tudo parece encaixar naturalmente. Ela até pode ser uma "avó do rock" mas é-o com estilo, garra e sentido de limites. Conforme a própria ao parafrasear Nelson Rodrigues, é caso para dizer: «jovens, envelheçam».

Alinhamento
Rita Lee – Amor e sexo
Rita Lee – Caso sério
Elis Regina – Me deixas louca
Adriana Calcanhoto - Devolva-me
Chico Buarque – Lança perfume
Rita Lee – Lança perfume
Arnaldo Antunes – O silêncio
Caetano Veloso – Beleza pura
Rita Lee – Desculpe o auê

terça-feira, 1 de julho de 2008

Noites de silêncios


Adormece meu corpo cansado
Nos mares distantes e até neste estive a teu lado
Morremos muitas vezes
Fomos devorados por gargantas enormes, negras
e cuspidos de volta
Não nos engoliram
Não gostaram
Urraram enraivecidas e delas rimos abraçados

As sombras fundem-se na negrura
e desaparecem com os seus medos

As estrelas nós conhecemos
sabemos os seus versos de cor
Decorámos nas longas noites de silêncios das horas mortas

Vou abrir as asas para proteger o teu sono
É tempo de calar-me
para ser ouvido entre os sibilos dos ventos tépidos

Barco Ancorado 01/07/2008


Uma das mais brilhantes vozes da Música Popular Brasileira, surgida nos últimos vinte anos, está hoje de parabéns. Completa 41 anos. Marisa Monte nasceu no Rio de Janeiro em 1967. Começou a estudar música aos 14 anos, influenciada pelo samba, bossa nova, tropicalismo, e por todos os nomes grandes da música brasileira que emergiram na segunda metade do século passado (Caetano Veloso, Gilberto Gil, António Carlos Jobim e João Gilberto, à cabeça). Marisa vê-se enquadrada numa segunda geração de continuadores desse período de ouro, onde a música brasileira ganhou asas com a fusão de elementos de jazz e pop.

Como quase todos os jovens brasileiros que viveram a década de 70, Marisa Monte é fortemente influenciada por Elis Regina. Embora a sua voz não seja exactamente igual à de Elis, Marisa tem em comum com a primeira a elasticidade vocal e a carga emocional que coloca em cada palavra que canta.
No final da década de 80, estudou Canto Clássico Europeu em Roma, regressando em seguida ao Brasil para combinar os conhecimentos entretanto adquiridos com a música do seu país. O resultado é uma música pop fresca, inovadora e altamente melódica.

Marisa Monte gravou o seu álbum de estreia homónimo em 1989, mas é com seu segundo trabalho "Mais", de 1991, que chega aos ouvidos do mundo. O disco, que atinge a platina no Brasil, teve produção de Arto Linsay e contou com as participações de nomes como Ryuichi Sakamoto e John Zorn. O sucesso do álbum leva Marisa a tocar fora do Brasil, nomeadamente nos EUA (onde dá os seus primeiros concertos) e na Europa (com uma participação notável no Festival de Jazz de Montreux).

A seguir a "Mais", Marisa Monte edita mais dois excelentes álbuns: "Verde Anil Amarelo Cor De Rosa E Carvão", em 1994, e "Barulhinho Bom", em 1996, ambos produzidos por Arto Linsay. Os dois trabalhos confirmam a sua maturidade, inteligência, e, acima de tudo, uma voz consolidada, que emerge como uma das melhores vindas do Brasil.
Em 2000, é editado "Memórias, Crónicas E Declarações De Amor", centrado no tema do amor e muito aclamado pela crítica. A turnê do álbum durou aproximadamente um ano e gerou o DVD homónimo com os melhores momentos do show.
Após quase cinco anos sem aparições relevantes Marisa voltou no primeiro semestre de 2006, quando lançou simultaneamente dois discos: “Infinito Particular” e “Universo Ao Meu Redor”, dedicados a canções inéditas do samba e da MPB no que resulta na criação da turnê Universo Particular.

Alinhamento
Marisa Monte – Não é fácil
Marisa Monte – Amor I love you
Maria Rita – Veja bem meu bem
Vanessa da Mata – A nossa canção
Adriana Calcanhoto - Devolva-me
Marisa Monte – Tema de amor
Tribalistas – Velha infância
Djavan – Se acontecer
Marisa Monte – Água também é mar